Inteligência Artificial — Texto 23. A economia da superinteligência. Por The Economist

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 min de leitura

Texto 23 – A economia da superinteligência

Por  em 26 de julho de 2025 (original aqui)

 

                               Ilustração Pete Ryan

 

Mesmo que as previsões do Vale do Silício fiquem apenas próximas de serem precisas, espere mesmo assim por uma agitação social sem precedentes.

Durante a maior parte da história, a previsão mais segura foi que as coisas continuariam mais ou menos como são. Mas, às vezes, o futuro é irreconhecível. Os chefes de tecnologia do Vale do Silício afirmam que a humanidade está a aproximar-se de um momento assim, porque, em apenas alguns anos, a inteligência artificial (IA) será melhor do que o ser humano médio em todas as tarefas cognitivas. Não é preciso apostar alto na possibilidade de eles estarem certos para perceber que essa afirmação merece ser analisada. Caso se torne realidade, as consequências seriam tão grandes quanto qualquer outra na história da economia mundial.

Desde as descobertas de quase uma década atrás, os poderes da IA têm repetidamente — e de forma espetacular — ultrapassado as previsões. Neste ano, modelos de linguagem de larga escala da OpenAI e da Google DeepMind conquistaram a medalha de ouro na Olimpíada Internacional de Matemática, Dezoito anos antes do que os especialistas tinham previsto em 2021. Os modelos continuam a crescer, impulsionados por uma corrida armamentista entre empresas de tecnologia — que esperam que o vencedor leve tudo — e entre a China e os Estados Unidos, que temem uma derrota sistémica caso fiquem em segundo lugar. Até 2027, deverá ser possível treinar um modelo usando mil vezes os recursos computacionais que construíram o GPT-4, que está por trás do robô de conversação mais popular da atualidade.

O que diz isso sobre os poderes da IA em 2030 ou 2032? Como descrevemos num dos dois relatórios desta semana, muitos temem um cenário apocalíptico, no qual terroristas com acesso à IA criam armas biológicas que matam milhares de milhões, ou uma IA “desalinhada” escapa ao controle e supera a humanidade. É fácil entender porque é que esses riscos extremos recebem tanta atenção. No entanto, como o nosso segundo relatório explica, eles têm ofuscado a reflexão sobre os efeitos imediatos, prováveis, previsíveis — e igualmente surpreendentes — de uma IA não apocalíptica.

Antes de 1700, a economia mundial crescia, em média, 8% por século. Qualquer um que previsse o que aconteceria depois pareceria insano. Nos 300 anos seguintes, com a Revolução Industrial em curso, o crescimento foi, em média, de 350% por século. Isso trouxe menor mortalidade e maior taxa de natalidade. Populações maiores produziram mais ideias, levando a uma expansão ainda mais rápida. Devido à necessidade de adicionar talento humano, o ciclo foi lento. Com o tempo, o aumento da riqueza levou as pessoas a terem menos filhos. Isso elevou os padrões de vida, que passaram a crescer a um ritmo estável de cerca de 2% ao ano.

 

Da subsistência ao silício

A IA não enfrenta tal restrição demográfica. Os tecnólogos prometem que ela acelerará rapidamente o ritmo com que as descobertas são feitas. Sam Altman, diretor-executivo da OpenAI, espera que a IA seja capaz de gerar “perceções inéditas” já no próximo ano. A IA já ajuda a programar modelos de IA melhores. Até 2028, alguns dizem, elas estarão a supervisionar as suas próprias melhorias.

Daí a possibilidade de uma segunda explosão de crescimento económico. Se o poder de computação gerar avanços tecnológicos sem intervenção humana, e se parte suficiente do retorno for reinvestida na construção de máquinas ainda mais poderosas, a riqueza poderá acumular-se a uma velocidade sem precedentes. Os economistas há muito reconhecem a lógica matemática implacável de automatizar a descoberta de ideias. De acordo com uma projeção recente da Epoch AI, um grupo de reflexão otimista, quando a IA puder executar 30% das tarefas, o crescimento anual ultrapassará 20%.

Verdadeiros crentes, nomeadamente Elon Musk, concluem que uma IA capaz de se autoaperfeiçoar criará uma superinteligência. A humanidade teria acesso a todas as ideias possíveis — incluindo as para construir os melhores robôs, foguetes e reatores. O acesso à energia e à longevidade humana deixaria de impor limites. A única restrição à economia seriam as leis da física.

Não é preciso ir a esse extremo para imaginar os efeitos impressionantes da IA. Considere, como uma experimentação mental, apenas o passo incremental rumo à inteligência em nível humano. Nos mercados de trabalho, o custo de usar poder computacional para uma tarefa limitaria os salários para executá-la: porquê pagar a um trabalhador mais do que à concorrência digital? No entanto, o número cada vez menor de superestrelas cujas competências não fossem automatizáveis e que pudessem complementar diretamente a IA desfrutaria de retornos enormes. As únicas pessoas que provavelmente se sairiam melhor do que elas seriam os proprietários de capital relevante para IA, que estariam abocanhando uma fatia crescente da produção económica.

Todos os demais teriam de se adaptar às lacunas das capacidades da IA e aos gastos dos novos ricos. Sempre que houvesse um estrangulamento na automação e na oferta de mão de obra, os salários poderiam subir rapidamente. Tais efeitos, conhecidos como “doença dos custos”, poderiam ser tão fortes a ponto de limitar a explosão do que é medido como PIB, mesmo que a economia mudasse completamente.

Os novos padrões de abundância e escassez refletir-se-iam nos preços. Qualquer coisa que a IA pudesse ajudar a produzir — produtos industriais fabricados em fábricas totalmente automatizadas, por exemplo, ou entretenimento digital — veriam o seu valor cair a pique. Se o leitor teme perder o seu emprego para a IA, ao menos poderá contar com a abundância desse tipo de coisas. Onde ainda fosse necessária mão-de-obra humana, a “doença dos custos” poder-se-ia manifestar. Trabalhadores do conhecimento que migrassem para trabalhos manuais poderiam descobrir que teriam condições de pagar por menos cuidados infantis ou menos refeições em restaurantes do que hoje. E os humanos poderiam acabar por entrar em competição com as IAs por terra e energia.

Essa disrupção económica refletir-se-ia nos mercados financeiros. Poderiam ocorrer oscilações bruscas entre ações, à medida que ficasse claro quais as empresas que estariam a vencer e quais as que estavam a perder em disputas do tipo “o vencedor leva tudo”. Haveria um desejo voraz de investir, tanto para gerar mais poder de IA quanto para que a quantidade de infraestruturas e de fábricas acompanhasse o crescimento económico. Ao mesmo tempo, o desejo de poupar para o futuro poderia entrar em colapso, à medida que as pessoas — especialmente os ricos, que são os que mais poupam — passassem a antecipar rendimentos muito mais altos.

Persuadir as pessoas a abrir mão de capital para investimento exigiria, portanto, taxas de juros muito mais altas — altas o suficiente, talvez, para fazer os preços de ativos de longa duração caírem, apesar do crescimento explosivo. Os estudiosos discordam, mas em alguns modelos as taxas de juros sobem na mesma proporção ou até mais que o crescimento. Num cenário explosivo, isso significaria ter que refinanciar dívidas a 20–30%. Mesmo devedores cujos rendimentos estivessem a crescer rapidamente poderiam sofrer; aqueles cujos rendimentos não estivessem vinculadas ao crescimento acelerado seriam duramente atingidos. Países que não conseguissem ou não quisessem explorar o boom da IA poderiam enfrentar fuga de capitais. Também poderia haver instabilidade macroeconómica em qualquer lugar, porque a inflação poderia disparar à medida que as pessoas gastassem de forma excessiva com base nas suas fortunas antecipadas, e os bancos centrais não elevassem as taxas de juros com rapidez suficiente.

É uma experimentação mental vertiginosa. A humanidade conseguiria lidar com isso? O crescimento já acelerou antes, mas não havia democracia de massas durante a Revolução Industrial; os luditas, os mais famosos inimigos das máquinas na história, não tinham direito ao voto. Mesmo que os salários médios disparassem, uma desigualdade maior poderia levar a exigências de redistribuição. O Estado também teria ferramentas mais poderosas para monitorizar e manipular a população. A política, portanto, seria volátil. Os governos teriam de repensar tudo, desde a base tributária até à educação e à proteção dos direitos civis.

Apesar disso, o surgimento da superinteligência deveria provocar admiração. Dario Amodei, patrão da Anthropic, disse à revista The Economist nesta semana que acredita que a IA ajudará a tratar doenças antes incuráveis (veja Schumpeter). A forma de encarar outra aceleração, caso ela ocorra, é como a continuação de um longo milagre, possível apenas porque as pessoas aceitaram a disrupção. A humanidade pode encontrar a sua inteligência ultrapassada pela IA. Ainda assim, continuará a precisar de sabedoria.

 

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